Um assunto que sempre torcemos pra estar encerrado voltou a ganhar destaque nos noticiários nesta última semana. O racismo no futebol era pra ser coisa de um passado que ficou pra trás, no entanto, é uma realidade ainda muito presente nos gramados mundiais e infelizmente também no Brasil.
O caso do goleiro Aranha foi o quarto de grande repercussão somente nesse ano nos gramados brasileiros – o primeiro foi com o árbitro Marcio Chagas, em Bento Gonçalves (RS), quando torcedores atacaram o carro dele e deixaram bananas no retrovisor; o segundo foi com o zagueiro Paulão, do Internacional, que ouviu insultos racistas de um torcedor gremista na Arena Grêmio em Porto Alegre; e o terceiro aconteceu com o também santista Arouca, quando ele dava entrevista para jornalistas na saída de campo de um jogo em Mogi Mirim (SP). Sem falar nos insultos sofridos por atletas brasileiros no exterior como aconteceu com o volante Tinga do Cruzeiro em partida contra o Real Garcilaso, no Peru, pela Copa Libertadores e pela polêmica levantada pelo lateral Daniel Alves do Barcelona ao comer uma banana jogada ao campo em partida contra o Villarreeal na Espanha.
Mesmo com inúmeras campanhas da FIFA essa mancha parece não querer sair do futebol. Esse episódio envolvendo o goleiro santista me fez refletir muito sobre o comportamento do torcedor de uma maneira geral. O que acontece, muitas vezes, é que existe a cultura de que o estádio é o local onde devemos extravasar e ofensas e xingamentos de todos os tipos, não só racistas, mas homofóbicos e machistas também, são aceitáveis, pra não dizer naturais. Ao colocar os pés dentro de um estádio, o torcedor, muitas vezes, se transforma em uma pessoa totalmente diferente da que ficou do lado de fora. Quem costuma ir ao campo, sabe como é, realmente uma das melhores coisas do futebol é poder viver um momento de catarse e esquecer dos problemas do dia a dia por algumas horas, extravasar mesmo. Mas será que não é necessário haver limites?
Os torcedores do Grêmio que cometeram um crime contra o Aranha, por exemplo, será que fariam o mesmo se o vissem em outro local e em outra situação que não fosse àquela da partida que seu time perdia de 2 a 0 em um torneio de mata a mata como a Copa do Brasil? Eu acredito que não, principalmente porque a legislação brasileira é bastante severa em relação aos crimes de racismo e duvido que se arriscariam. E também pelo fato de que o comportamento do torcedor costuma mudar quando este se encontra em massa, como foi comentado acima.
Não podemos afirmar se quem foi racista com o Aranha é racista também em seu cotidiano. Inclusive amigos negros da torcedora Patrícia Moreira, flagrada por câmeras de TV chamando o goleiro de Macaco, saíram em sua defesa quando entrevistados por jornalistas. Além do que câmaras de TV flagraram torcedores negros do Grêmio no meio do bando que ofendia Aranha com injúrias raciais... Fica a reflexão: Será que ao pagar um ingresso podemos ferir a honra de um jogador, de um técnico, de um juiz, por sua cor, pela sua orientação sexual ou simplesmente por ser mulher? Por fazer parte de uma multidão dentro de um estádio o torcedor tem o direito de agir irracionalmente? Será que vale tudo mesmo?

