terça-feira, 28 de agosto de 2012

Atirador de Elite

Um time campeão pede um cobrador de falta. Corinthians tem Alex, papou a Libertadores e o Brasileiro. Palmeiras tem Marcus Assunção, ganhou a Copa do Brasil.

O cobrador de falta é o segundo capitão. O xerife do ataque. A possibilidade de salvar o jogo quando nada funciona. É um gerador de luz nos apagões do talento. Quando a bola não quer entrar, ele surge com força ou jeitinho para impor a vantagem. Assegura tranquilidade no nervosismo das prorrogações.

É o suspiro de esperança quando não resta sopro, é o que mantém o torcedor na arquibancada durante os acréscimos. O cobrador corresponde a um atirador de elite, aquele que fica no telhado com a mira do rifle esperando a mínima movimentação do goleiro para surpreender as redes. Os melhores plantéis sempre forjaram um cobrador em suas fornalhas. Não necessitava ser um craque, desde que não comprometesse a partida.


O Atlético Mineiro dos anos 80 contou com o canhotaço de Éder. Cruzeiro dos anos 70 se valeu da potência de Dirceu Lopes e Nelinho (sua força estrondosa está exemplificada no Guiness Book, conseguir chutar uma bola para fora do estádio do Mineirão). Flamengo brilhou com Zico, Tita e Júnior. Vasco reluziu com Roberto Dinamite. O Inter esbanjou títulos com Valdomiro e Jair em sua década vitoriosa no Brasileirão. São Paulo chegou ao tri da América e Mundial com Rogério Ceni e Raí. O timão nunca desprezou a essência desse personagem predestinado: Zenon, Neto, Marcelino Carioca.




Não há título mundial brasileiro que não requisitou de um matador de falta em suas trincheiras. Em 58 e 62, Didi e Garrincha desfilaram sabedoria e malandragem. Em 94, Branco fez a diferença. Em 2002, Ronaldinho Gaúcho e Roberto Carlos revezaram os tiros de misericórdia. A seleção brasileira de 70 alcançou a proeza de juntar cinco grandes finalizadores a distância, um verdadeiro pelotão de fuzilamento formado por Gérson, Rivelino, Pelé, Tostão e Jairzinho.


Preparar um cobrador é cuidar da validade do extintor de incêndio e viabilizar saídas de emergência imediatas. É pensar no futuro.Falta perto da área é quase inevitável, mesmo diante da zaga mais educada (já o pênalti é um milagre, e os juízes estão cada vez mais céticos diante das encenações constantes dos atacantes).

Equipe que se preza reivindica um batedor. Um personagem unânime no grupo, o que treina um pouco mais com o fim do coletivo. Acontece uma falta, e não existe confusão, protesto e briga para definir quem assumirá o lance. Está definido pelo treinador desde o início dos tempos. Ele aparece de longe e com a calma de um veterano. Transpira a exclusividade e o carisma de um líder - os demais se afastam por respeito.

Todos sabem quem ele é, devem saber ao menos, para temer. O batedor vem com seu sangue-frio pegar a bola, ajeita a redonda na grama e dispara seu petardo ou com efeito ou com violência.



O cobrador não é um acessório, mas é a alma da competitividade...


A bola parada é competência num jogo feito de sorte e azar...


Carpinejar

domingo, 26 de agosto de 2012

Sonho Distante

Um dos assuntos mais comentados durante a semana do maior clássico do futebol mineiro foi a questão da torcida única. Depois de um longo período jogando fora de BH, em 2012, Cruzeiro e Atlético voltaram a jogar na capital, mas aquele espetáculo bonito protagonizado pelas 02 torcidas rivais dentro do estádio não poderá será visto este ano. A Polícia alega falta de condições de fazer a segurança no Estádio Independência e em seus arredores.

A decisão divide opiniões, muitos alegam que só em Minas existe esta restrição. Em São Paulo, por exemplo, quando o Santos joga na Vila, que não é um campo grande, sempre permite que os rivais Corinthians, Palmeiras, e São Paulo ocupem os 10% reservados para a torcida visitante. E todos sabem que a “fama” das torcidas organizadas desses clubes não é nada boa.

Seria então má vontade por parte das autoridades mineiras? Concordemos ou não, o fato é que infelizmente os clássicos pelo país vêm sendo marcados pela violência já há muito tempo. Acredito que há como tomar medidas para controlar a criminalidade, mas é impossível negar que existe um certo receio por parte de todos.


Em dia de clássico temos medo até de sair de casa com a camisa de nosso time estando indo ou não para o estádio. E a preocupação é procedente, afinal, as pessoas levam o futebol “a sério demais”. Seria tão bom poder sair às ruas pra comemorar a vitória de seu time sobre o rival sem ter aquela sensação de que a qualquer momento podemos ser vítimas de algum ato violento.

Provocar o adversário faz parte do futebol, e, aliás, é um dos principais prazeres que o esporte proporciona a seus adeptos. Um dia você provoca, no outro vai ser provocado. Mas, infelizmente, muitos não conseguem entender algo tão simples e por causa de alguns todos saem perdedores.

Uma amiga minha que esteve no Chile, no ano passado, me contou que um dia passeando pelas ruas de SanTiago se deparou com 02 grupos de torcedores rivais que tinham acabado de deixar o estádio onde assistiram uma partida entre seus respectivos clubes. Perguntei se ela teve medo, pra minha surpresa ela disse que não, porque eles apenas se provocavam com palavras (e durante muito tempo) sem esboçarem qualquer tipo de agressão física, como deveria acontecer em qualquer parte do mundo dito civilizado. Fiquei pensado como ela se sentiria ao presenciar a mesma cena por aqui...