Um time campeão pede um cobrador de falta. Corinthians tem Alex, papou a Libertadores e o Brasileiro. Palmeiras tem Marcus Assunção, ganhou a Copa do Brasil.
O cobrador de falta é o segundo capitão. O xerife do ataque. A possibilidade de salvar o jogo quando nada funciona. É um gerador de luz nos apagões do talento. Quando a bola não quer entrar, ele surge com força ou jeitinho para impor a vantagem. Assegura tranquilidade no nervosismo das prorrogações.
É o suspiro de esperança quando não resta sopro, é o que mantém o torcedor na arquibancada durante os acréscimos. O cobrador corresponde a um atirador de elite, aquele que fica no telhado com a mira do rifle esperando a mínima movimentação do goleiro para surpreender as redes. Os melhores plantéis sempre forjaram um cobrador em suas fornalhas. Não necessitava ser um craque, desde que não comprometesse a partida.
O Atlético Mineiro dos anos 80 contou com o canhotaço de Éder. Cruzeiro dos anos 70 se valeu da potência de Dirceu Lopes e Nelinho (sua força estrondosa está exemplificada no Guiness Book, conseguir chutar uma bola para fora do estádio do Mineirão). Flamengo brilhou com Zico, Tita e Júnior. Vasco reluziu com Roberto Dinamite. O Inter esbanjou títulos com Valdomiro e Jair em sua década vitoriosa no Brasileirão. São Paulo chegou ao tri da América e Mundial com Rogério Ceni e Raí. O timão nunca desprezou a essência desse personagem predestinado: Zenon, Neto, Marcelino Carioca.
Não há título mundial brasileiro que não requisitou de um matador de falta em suas trincheiras. Em 58 e 62, Didi e Garrincha desfilaram sabedoria e malandragem. Em 94, Branco fez a diferença. Em 2002, Ronaldinho Gaúcho e Roberto Carlos revezaram os tiros de misericórdia. A seleção brasileira de 70 alcançou a proeza de juntar cinco grandes finalizadores a distância, um verdadeiro pelotão de fuzilamento formado por Gérson, Rivelino, Pelé, Tostão e Jairzinho.
Preparar um cobrador é cuidar da validade do extintor de incêndio e viabilizar saídas de emergência imediatas. É pensar no futuro.Falta perto da área é quase inevitável, mesmo diante da zaga mais educada (já o pênalti é um milagre, e os juízes estão cada vez mais céticos diante das encenações constantes dos atacantes).
Equipe que se preza reivindica um batedor. Um personagem unânime no grupo, o que treina um pouco mais com o fim do coletivo. Acontece uma falta, e não existe confusão, protesto e briga para definir quem assumirá o lance. Está definido pelo treinador desde o início dos tempos. Ele aparece de longe e com a calma de um veterano. Transpira a exclusividade e o carisma de um líder - os demais se afastam por respeito.
Todos sabem quem ele é, devem saber ao menos, para temer. O batedor vem com seu sangue-frio pegar a bola, ajeita a redonda na grama e dispara seu petardo ou com efeito ou com violência.
O cobrador não é um acessório, mas é a alma da competitividade...
A bola parada é competência num jogo feito de sorte e azar...
Carpinejar

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